A Wikipédia nem sempre é um primor, mas o conceito de empatia nela, está bom para usar aqui neste blog, que não pretende nada mais que ser um desafogo das coisas que vão pela minha cabecinha cheia demais. Lá ela está definida como: “O estado de empatia, ou de entendimento empático, consiste em perceber corretamente o marco de referência interno do outro com os significados e componentes emocionais que contém, como se fosse a outra pessoa, porém sem perder nunca essa condição de “como se”. A empatia implica, por exemplo, sentir a dor ou o prazer do outro como ele o sente e perceber suas causas como ele a percebe, porém sem perder nunca de vista que se trata da dor ou do prazer do outro. Se esta condição de “como se” está ausente, nos encontramos diante de um caso de identificação (1).” Resumindo, empatia é capacidade de se colocar no lugar do outro.
Noto que algumas pessoas fazem isso de forma muito fácil, talvez seja parte uma habilidade inata e parte desenvolvida com o tempo e o olhar sobre as pessoas, principalmente as diferentes de si mesmo. Acho, por exemplo, que na blogosfera a Lola, que comecei a acompanhar faz pouco tempo, faz isso de forma ímpar. Ela escreve de forma simples, acessível a todos, mas com grande embasamento teórico e sempre com um olhar que abrange além dela mesma, ela vê também da perspectiva de quem está de fora da questão que ela coloca.
Acho ainda mais difícil desenvolver verdadeira empatia, isto é colocar-se verdadeiramente no lugar do outro, ao analisarmos questões sociais da perspectiva das pessoas que estão à margem da sociedade. Parem e pensem que reportagens de revista ou TV, só para dar o exemplo, ao citarem a condição da mulher que trabalha fora. Sempre fazem isso do ponto e vista da mulher branca e de classe média. Bom, irão me dizer que é este o público que consome revistas. Verdade. Mas a classe D de acordo com as pesquisas tem tido boa ascensão social, a maioria dos lares brasileiros, mais de 90% se não me engano, possui televisão porque nunca essas pessoas são retratadas de forma fidedigna?
Nas novelas das 8 as empregadas domésticas vivem nas casas dos patrões, vivem suas vidas para agradar às patroas, fazem tudo por elas e estão sempre felizes. Você acha mesmo que quem chacoalha no trem ou ônibus 1 ou 2 horas de manhã e de noite para ir e voltar do trabalho, ganha 1 ou 2 salários mínimos, deixa seus filhos sabe-se lá com quem ou geralmente com ninguém, chega em casa e tem o serviço da própria casa pra fazer, vive feliz? Não, elas não se enxergam como profissionais porque não são respeitadas como tal, são "como se fossem" da família, mas não são da família, e também não são profissionais com perspectiva de carreira. Eu larguei meu emprego em busca de outro em busca disso, de uma carreira digna. Elas não podem. fazer isso, precisam comer, viver. Não estudaram e não foi só porque não quiseram. São tantas dificuldades. Já começa lá no ventre da mãe, com subnutrição, falta de ferro. Também estudam em escolas precárias, ou você acha mesmo que nos rincões do país, embora o esforço sobre humano de muitos professores, a condição de estudo é a mesma que por aqui? E aí vão me dizer, ah, mas fulana de tal conseguiu. Eu sei conheço uma que conseguiu com a ajuda da patroa e óbvio muita dedicação e perseverança, mas o sistema não foi desenhado pra todas conseguirem, ou não teríamos domésticas em casa. Só no terceiro mundo a classe média tem esse luxo.
Outra questão é o negro. Olho pro meu prédio e vejo duas famílias de negros em 72 apartamentos de classe média. Na escola dos meus filhos, que não é das mais caras ou elitizada, nas turmas deles não há sequer um mulato. No nosso clube há somente uma família negra, fica até agressivo ter uma só,num país de maioria negar ou mulata, e são diplomatas! E me espanta ninguém achar isso ruim, isso é sim exclusão social e racial. Acham que é só mero resultado da pobreza. Negro é uma cor de pele, assim como branco, ou índio ou o amarelo, dos orientais. É uma característica humana, que não faz ninguém melhor ou pior, mas faz parte da pessoa e o identifica como indivíduo. Assim como ser alto, magro, baixo ou gordo, homem ou mulher. Mas em nada deveria fazer alguém melhor ou pior. Mas historicamente fez, os fez escravos, seres dominados e explorados e isso deve ser reparado em algum momento de algum modo, ou continuarão a não frequentar o meu clube, por exemplo. A meritocracia não vai resolver esse problema, como eu já disse o sistema capitalista não dá lugar a todos para subirem, isso é ilusão. Só quem foi discriminado sabe como é quanto dói, e quantas chances são negadas. Sou mulher e gorda, sei um pouco, mas posso somente imaginara dor de uma negra e pobre, mas posso.
Também me chocou ao assistir a bela peça Renato Russo ( recomendo) que ao ver as dores do Renato as pessoas riam e eu chorava. Ele sempre se sentiu um adolescente rejeitado, deslocado, diferente. E isso está bem refletido em suas letras que até hoje batem fundo. Talvez ele já soubesse da sua homossexualidade. Assumir foi um ato de coragem, existem cobranças socais e familiares, pessoas riram nesse momento da peça, eu chorava. Assistia da perspectitiva de mãe que sabia que o filho sofria e não sabe como minorar as dores psíquicas daquele ser tão amado. Me chocou a falta de empatai que me revelava aquelas risadas. Ou era um riso nervoso? De quem se reconhecia na dor e não queria se revelar?
Empatia é olhar pro seu porteiro, sua doméstica, a faxineira da sua firma e bater papo e entender a vida que eles vivem, sem criticá-los.É entender que a esposa é sobrecarregada, que o amigo homossexual sofreu par assumir pra sociedade e pra família algo que pra ele é tão íntimo. È saber que existe nesse país preconceito de classe, de gênero e de raça, mas você só vai ver isso se conversar de peito aberto com todo mundo e conseguir mesmo, se colocar no lugar deles. E isso serve pra hora de votar, pra hora de ir para rua brigar por alguma coisa e pra tratar melhor todos a sua volta.